7 de março de 2005 - Crianças de sete anos circulando armadas e vendendo drogas em favelas do Rio de Janeiro. A cena foi relatada por dezenas de moradores em telefonemas anônimos dados ao Disque-Denúncia em 2004. Criado para estimular a população a denunciar casos de violência praticados na cidade, o serviço divulgou em fevereiro uma pesquisa inédita com a lista de agressões e abusos sofridos por moradores e vizinhos de favelas.
Além do envolvimento de crianças e adolescentes com a violência armada, o Disque-Denúncia recebeu queixas sobre a existência de paióis do tráfico escondidos em casas de moradores, associações e igrejas, cobrança de ágio na distribuição de botijões de gás, desvio de rotas de Kombis para serem usadas por traficantes, imposição de luto e até toque de recolher.
Uma das denúncias diz que “os chefes do tráfico estão aterrorizando os moradores, impondo toque de recolher e atirando contra as residências se alguém fica observando a movimentação”.
“Quando traficantes de fora invadem a favela eles chegam aqui fazendo o que querem. Eles expulsam moradores antigos de suas casas, criam regras próprias e se acham os donos do morro”, se revolta Antônio*, morador de uma favela do Rio invadida recentemente por traficantes de uma facção rival. “É também cada vez mais comum ver crianças vendendo drogas nas ruas ou andando com armas”, confirma.
Moradores na ativa
Até o começo dos anos 90, os principais traficantes de drogas no Rio concentravam suas ações na própria comunidade de origem. Muitos deles haviam crescido na favela e mantinham relações amistosas com as lideranças comunitárias. Para ganhar apoio dos vizinhos, alguns praticavam ações paternalistas, como comprar remédios e realizar obras, e eram vistos como ‘protetores’ da comunidade por uma parcela considerável dos moradores.
Com o acirramento recente da rivalidade entre grupos inimigos por controle de novos pontos de venda de drogas, aumentou também o número de invasões de territórios e confronto armado. Os traficantes antigos são mortos ou expulsos da favela – assim como seus parentes e conhecidos - e traficantes de outras localidades assumem seus lugares. Resultado: os poucos laços que uniam moradores e traficantes se romperam. Os bandidos ficaram mais violentos e autoritários e os moradores menos tolerantes.
Esse novo fenômeno fez com que muitos moradores de favela deixassem de lado o medo e passassem a denunciar ações criminosas ou abusivas em suas comunidades. Ao longo de 2004, o Disque-Denúncia recebeu um total de 18.287 telefonemas, 46 em média por dia. Quase dez mil informando sobre a existência de paióis do tráfico e de armas escondidas. Em seguida no ranking das maiores reclamações, vêm o emprego de menores no tráfico e os bailes funk.
‘Soldados’ do tráfico são novo alvo da polícia
Para tentar controlar a atual onda de violência que toma conta das favelas do Rio e assusta os moradores da cidade, a Secretaria de Segurança Pública anunciou em janeiro um novo plano de repressão com operações de grande porte com a participação de até 1.500 policiais militares.
As ações são planejadas em conjunto com o Governo Federal e têm como objetivo prender os chamados ‘soldados’ do tráfico, a maioria jovens com menos de 18 anos que atuam em cargos subalternos. Segundo a polícia, todos os principais chefes do tráfico já estão presos.
(Crianças e adolescentes começam no tráfico de drogas no Rio embalando maconha e cocaína, os chamados “endoladores”, ou fazendo o transporte da droga dos pontos de venda no interior das favelas para locais onde pessoas de fora da comunidade podem ter acesso mais fácil, os “vapores”. Outros trabalham avisando sobre a chegada de policiais e traficantes rivais, os “olheiros” e “fogueteiros”).
”Queremos prender, apreender e asfixiar, reforçar a presença do Estado e, por fim, combater cada vez mais frontalmente os ‘soldados’ do tráfico”, disse o secretário de Segurança Pública do Rio, Marcelo Itagiba, em janeiro, durante a apresentação do plano.
Membro do Conselho de Defesa dos Direitos da Criança e do Adolescente, o advogado Carlos Nicodemos acredita que a nova estratégia da polícia do Rio vai aumentar ainda mais a criminalização da pobreza e da juventude por parte do estado.
“A favela é o local mais óbvio e evidente da violência, mas não o decisivo. Seria muito mais eficiente se a polícia realizasse ações estratégicas para evitar entrada de armas e drogas na fronteira, além de projetos de prevenção”.
A organização não-governamental Centro de Justiça Global pediu à Comissão Interamericana de Direitos Humanos da Organização dos Estados Americanos (OEA), em Washington, que seja feito um levantamento rigoroso das ações da polícia do Rio.
* O morador pediu para não se identificado.
Fonte: O Globo, JB.
Para saber mais: Ex-traficante conta como é o cotidiano nas ‘bocas’ do Rio de Janeiro