Publicada em: 06/06/2005 às 00:00
Entrevistas


'Cabeça de Porco' reúne reflexões etnográficas sobre violência urbana com depoimentos de jovens envolvidos no tráfico de drogas no Brasil
Marcelo Monteiro

6 de junho de 2005 - Um rapper, um empresário de hip-hop, e um antropólogo com passagem pela secretária nacional de Segurança Pública. O encontro - no mínimo – improvável acabou gerando um dos melhores e mais reveladores livros sobre violência e juventude já escritos no Brasil. MV Bill, autor de músicas como ‘Soldado do Morro’, Celso Athayde, criador do Prêmio Hutuz, o mais importante do hip-hop no país, e Luis Eduardo Soares, um dos maiores especialistas em conflitos urbanos na América do Sul, se encontraram pela primeira vez em 1999, logo após o lançamento do clipe de ‘Soldado do Morro’, que mostra imagens de jovens portando armas e vendendo drogas em bocas de fumo de várias cidades do Brasil. 

 

Celso, Bill e Luis Eduardo
Celso, Bill e Luis Eduardo
MV Bill e Celso Athayde, nascidos na Cidade de Deus e Favela do Sapo, respectivamente, logo ficaram impressionados com a visão que Luis Eduardo tinha sobre o cotidiano nos morros do Rio. “Vi que a distância geográfica não impedia a aproximação ideológica. Me surpreendi com a sua visão sobre a violência. O fato de ele ter sido subsecretário de Segurança do Rio de Janeiro nunca fez dele um inimigo. Sempre quis que os chefes das polícias fossem parceiros da favela”, disse MV Bill, em entrevista recente.

Três anos e alguns encontros depois, os três selaram a parceria: escrever um livro sobre os jovens que se envolvem com o tráfico de drogas e violência armada organizada no Brasil. O resultado é ‘Cabeça de Porco’ (Editora Objetiva), lançado dia 30, no Rio de Janeiro. O livro mistura reflexões sobre a violência urbana e pesquisas etnográficas feitas durante sete anos por Luis Eduardo Soares, com depoimentos colhidos por Bill e Celso em pontos de venda de drogas em nove cidades do país.

 

As semelhanças entre as realidades vividas por jovens do Rio de Janeiro, onde estão as maiores facções de drogas, e cidades pequenas como Joinvile, na região Sul do país, são um dos maiores achados do estudo. Nos dois locais, os adolescentes têm o mesmo sistema de organização e estrutura hierárquica, além de usarem gírias praticamente iguais.

 

“As semelhanças entre essas cidades são as seguintes: meninos pobres, freqüentemente negros, são recrutados pelo tráfico, cada vez mais jovens. Nesse processo, que eles não controlam e mal conhecem, primeiro eles são vítimas, depois ocupam a posição de algozes; e finalmente, voltam a ser vítimas acabando os seus dias de forma precoce e cruel”, diz Luis Eduardo Soares, por e-mail, em entrevista exclusiva ao COAV.

 

Segundo os autores, o principal objetivo do livro é humanizar os jovens envolvidos no tráfico de drogas – sem, no entanto, tirar-lhes a responsabilidade por seus atos. E é justamente neste ponto que o livro tem seu maior mérito. Os relatos sobre famílias completamente desestruturadas e o desejo de deixar a vida do crime são uma constante.

 

“Eu não tinha necessidade de ficar na vida do crime. Eu queria o amor de uma tia, de uma mãe, isso eu nunca tive, o amor de uma família, que quando eu precisasse para conversar, ela estivesse lá, viesse conversar comigo”, diz um adolescente de 16 anos, logo após relatar seu primeiro esquartejamento. “Só dessa vez eu fiz uma coisa errada. Depois nunca mais, graça a Deus”.

 

Todas as entrevistas foram gravadas em vídeo e devem render até o final do ano um documentário – que seria a terceira etapa do projeto, que começou justamente com o clipe ‘Soldado do Morro’ (tanto MV Bill quanto Celso Athayde ainda respondem processo criminal pela divulgação das imagens).

 

Apesar do clima de impotência frente à realidade atual de mortes e violência no Brasil, Luis Eduardo Soares mantém a esperança e aposta em projetos de prevenção para diminuir o número de jovens envolvidos no tráfico de drogas.

 

“A repressão deveria ser o último recurso. Antes dela, há um mundo a construir na linha da prevenção, com reinserção, educação e valorização pessoal”, diz. “Nós queremos exterminar a juventude pobre ou queremos integrá-la?”.

 

Leia abaixo os principais trechos da entrevista com Luis Eduardo Soares.

 

COAV - Rio de Janeiro, Recife e Vitória são as cidades estudadas no livro com os índices de violência mais altos do Brasil. Quais as principais diferenças e semelhanças entre jovens envolvidos com o tráfico no Rio e nas outras nove cidades pesquisadas no livro?

 

LE: Cada uma das nove cidades apresenta suas especificidades. Mas com certeza alguns aspectos comuns se destacam e talvez surpreendam não só os que não conhecem de perto essas cidades, como até mesmo moradores que transitam por espaços sociais distantes das arenas em que se travam as batalhas cotidianas, entre a vida e a morte. Por exemplo: quem imaginaria cenas de “guerra”, usualmente associadas ao Rio de Janeiro, nas vilas de Porto Alegre? As semelhanças são as seguintes: meninos pobres, freqüentemente negros, são recrutados pelo tráfico, cada vez mais jovens. Nesse processo, que não controlam e mal conhecem, primeiro eles são vítimas; depois, provisoriamente, ocupam a posição de algozes; e finalmente voltam a ser vítimas acabando os seus dias de forma precoce e cruel, antes dos 25 anos. Outra analogia: as polícias, salvo honrosas exceções, são parte do problema e não da solução, por sua brutalidade arbitrária, pelo grau de corrupção que as degrada, por seu despreparo e sua incapacidade de zelar pelo cumprimento das leis.

 

Quais as diferenças no perfil do jovem que se envolve com o tráfico hoje e nos anos 80 e 90?  Existe uma banalização da morte? Os jovens do tráfico de hoje são mais violentos?

 

Todos os que lidam com a problemática da violência reconhecem que houve um aumento no grau de violência e até de crueldade na última década. Aumento que, surpreendentemente, acompanhou a diminuição da idade em que o jovem se envolve com o tráfico e o crime. Essa questão constitui um dos maiores dilemas que nos desafiam. Talvez esse fenômeno tenha a ver com o fato de que, mais jovens, a instância auto-crítica que se instala na estrutura psíquica ainda esteja débil ou possa mais facilmente talvez debilitar-se ante a pressão do pertencimento ao grupo de referência.

 

Você disse numa entrevista recente que “um negro caminhando pelas ruas de uma grande cidade é um ser socialmente invisível” e que a arma seria um passaporte para a visibilidade. O próprio MV Bill comentou que ele próprio já foi invisível. Você acha que acesso a informação, educação de alto nível e projetos que alimentem a auto-estima do jovem pode ser o começo para o fim da violência?

 

Sem dúvida. Estou absolutamente convencido disso. Nosso livro, ‘Cabeça de Porco, de modo algum negligencia a importância da economia (só um insensato faria isso), mas insiste na dimensão inter-subjetiva, simbólica, afetiva, psicológica, cultural. Não porque ela seja a mais importante, mas simplesmente porque a sociedade não lhe tem dado a devida atenção. Temos de oferecer aos jovens pelo menos o mesmo que o tráfico oferece, com sinal invertido, claro: recursos materiais, sem dúvida, mas também reconhecimento, acolhimento e valorização. Afinal, há uma fome mais funda e radical que a fome física: a fome de afeto, reconhecimento e valorização, elementos que alimentam a auto-estima e põem de pé um sujeito verdadeiramente apto a agir.

 

Como fazer para a população carioca voltar a acreditar na polícia?

 

Começar de novo. Refundar as instituições policiais em novas bases, aproveitando todo o pessoal qualificado e honesto, afastando os demais, e reorganizando radicalmente as atividades de formação, gestão do conhecimento, gerenciamento, perícia, prevenção e controle externo.

 

Governos do mundo inteiro discutem hoje a eficácia de planos de repressão contra violência. Você acredita que projetos de prevenção, reinserção e educação podem resolver o problema da violência sozinhos ou ações de repressão serão sempre necessárias?

 

Acho que seria utópica uma sociedade que prescindisse de repressão. Mas ‘repressão’ virou palavrão, sempre associada a ditaduras e à negação da liberdade e da dignidade humana. No entanto, quando reprimimos a agressão perpetrada contra uma criança ou uma vítima inocente, não estamos oprimindo a liberdade individual do agressor, mas protegendo a vida, defendendo os direitos e a liberdade da vítima, não é mesmo? Portanto, uma visão libertária do mundo pode ser perfeitamente compatível com a valorização positiva de determinadas práticas repressivas, desde que estas se dêem para proteger direitos e liberdades. Mas por outro lado, acredito que a repressão deveria ser o último recurso. Antes dela, há um mundo a construir na linha da prevenção, com reinserção, educação e valorização pessoal. Se queremos que alguém mude, temos de lhe oferecer bases firmes. Ninguém muda se acreditar que é um lixo. Nós queremos exterminar a juventude pobre ou queremos integrá-la? Perdoar a dar a segunda chance significa também perdoarmo-nos a nós mesmos e darmo-nos a nós, enquanto sociedade, uma segunda chance. Não seria ótimo termos uma chance e escaparmos à culpa terrível de abandonarmos milhares de crianças às armas?

 

Para saber mais: Pesquisa inédita denuncia envolvimento de crianças de até sete anos em tráfico de drogas no Rio de Janeiro


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