3 de março de 2004 - O relatório "A guerra da Colômbia e as crianças" elaborado pela organização norte-americana Watchlist denuncia que ambos os lados do conflito armado (guerrilha e paramilitares), e também as forças armadas e a polícia nacional cometem atos de violência e abusos contra crianças e adolescentes. Estes atos, segundo o documento, incluem violência sexual, assassinatos e mutilações, além do recrutamento forçado para o combate.
“O fácil acesso a armas pequenas facilita o emprego de crianças como soldados, assassinos, espiões, e as transformam em vítimas de violência e do desrespeito aos direitos humanos", acrescenta a organização.
O relatório traz um diagnóstico do contexto social das crianças colombianas englobando os temas: refugiados e deslocados, saúde, HIV/AIDS, educação, violência de gênero, tráfico e exploração, minas e UXO (armamento explosivo não ativado), armas pequenas e crianças combatentes.
Tráfico de drogas, gangues juvenis e conflito armado
De acordo com a Watchlist, a indústria colombiana de drogas ilícitas supre cerca de 80% da cocaína no mundo e move grandes quantidades de dinheiro. Nos anos 80, afirma o estudo, surgiu uma geração de jovens que viu no tráfico de drogas sua única esperança para um futuro melhor.
“Hoje os jovens pertencentes às gangues juvenis são freqüentemente assediados pelos paramilitares para integrarem suas tropas. Também são pressionados pos traficantes de droga, guerrilheiros, milícias urbanas, polícia, forças armadas e outros atores armados vinculados ao conflito político e ao narcotráfico. Em alguns casos, eles são pagos por seus serviços”.
Esta situação é particularmente grave em Medellín, cidade que integra a Pesquisa Internacional COAV e que é considerada a mais violenta do mundo em número de mortes violentas ao ano, com relação à sua densidade populacional.
Segundo o Fórum Colômbia, Medellín abriga 400 gangues, com cerca de dez mil jovens como membros. Ao todo, estima-se que em Medellín 40 mil jovens entre 14 e 25 anos morreram por causas violentas nos últimos 20 anos. A combinação entre pobreza, violência urbana, conflito armado e tráfico de drogas está vitimando a juventude de Medellín, além de causar a crescente militarização da sociedade.
Proliferação de armas
Embora não existam números exatos sobre a circulação de armas pequenas na Colômbia, estima-se que a população civil possui mais armas que as utilizadas pelas forças militares e policiais. O resultado disso é o índice de homicídios, de cerca de 20 mil por ano, incluindo aproximadamente 4 mil crianças, segundo o UNICEF.
No conflito armado e na delinqüência comum são utilizadas armas pequenas leves, entre elas fuzis de assalto, granadas e bazucas, segundo o relatório.
Uma conseqüência desta duradoura situação de violência apontada pelo estudo é a "cultura de violência generalizada", que leva alguns jovens a expressarem seu desejo de possuir ou utilizar uma arma pelo poder e a proteção que ela representa ou proporciona. A oportunidade de portar e utilizar armas, afirma o texto, leva jovens de ambos os sexos até os grupos armados.
"As meninas, especialmente aquelas que foram vítimas de violência sexual ou doméstica, optaram por integrar grupos armados pela oportunidade de portar uma arma", exemplifica o documento.
A Watchlist denuncia que a Colômbia não tem um controle governamental efetivo sobre a proliferação e o uso de armas pequenas e leves, e que o presidente Uribe está desenvolvendo iniciativas para fortalecer as forças armadas e a polícia armando civis por meio do programa de soldados camponeses e da “Red de Cooperantes”, uma rede de informantes pagos pelo Estado.
"Uribe expressou sua intenção de envolver até 1 milhão de civis em tal programa, sem fixar limites de idade para os participantes nem medir as conseqüências.”
O relatório apresenta uma série de recomendações urgentes de ação, entre as quais solicita aos grupos guerrilheiros e paramilitares, ao governo da Colômbia, às Nações Unidas e ao governo dos Estados Unidos que tomem as medidas adequadas “para que não se cometam mais atrocidades contra de os meninos e meninas da Colômbia".
Fonte: Watchlist, Desarme.org
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