Social Watch: Taxa de homicídios de jovens no Brasil é quase genocídio
Redação COAV
10 de maio de 2004 - “Redes criminosas estão claramente em ascensão, causando o aumento da violência urbana, particularmente na América Latina. O país que se destaca é o Brasil, onde um dos maiores obstáculos à segurança humana é a violência urbana em geral, especialmente a violência urbana que alveja os jovens pobres. A taxa de assassinatos é cerca de dez vezes mais alta entre esta população do que no país como um todo.”
O texto acima está no primeiro capítulo do Relatório Anual de 2004 elaborado pela organização internacional Social Watch. O documento, cujo título em inglês é “Fear and Want – Obstacles to Human Security” (Medo e Necessidade, Obstáculos à Segurança Humana), traz informações sobre a situação social em 48 países.
A abertura do capítulo que trata do Brasil compara a taxa de homicídios de jovens com um genocídio, mas destaca a resposta da sociedade civil organizada à violência:
“Para jovens (15 a 24 anos) de áreas urbanas de baixa renda, a taxa de homicídios é de 230 por 100.000 habitantes, quantia que quase caracteriza um genocídio. A sociedade civil está respondendo mais e mais à esta violência com mobilizações, projetos, programas e iniciativas locais como formas de atacar o problema e promover a segurança humana”.
Com base em informações da pesquisa “Crianças do Tráfico, Um Estudo de Caso de Crianças em Violência Armada Organizada no Rio de Janeiro”, do Viva Rio, o relatório pondera que o Brasil não está em guerra, mas afirma que o índice de mortes violentas nos grandes centros urbanos condiz com a situação de países que vivem situações de conflito.
''Análises comparativas com países em guerra ou em situações de intenso conflito concluem que houve mais mortes por arma de fogo no Rio de Janeiro do que em confrontos armados em Angola (1998-2000), Serra Leoa (1991-1999) Iugoslávia (1998-2000), Afeganistão (1991-1999) ou Israel (1991-1999)''.
A radiografia da situação brasileira foi encomendada ao Centro de Estudos de Segurança e Cidadania da Universidade Cândido Mendes (Cesec), ligado ao Observatório da Cidadania, ONG que representa a Social Watch no Brasil. Os dados do Cesec destacam a má distribuição de renda entre pobres e ricos e, principalmente, entre negros e brancos, como um dos responsáveis pela marginalidade que provoca mortes violentas entre os jovens negros, com idade entre 15 e 24 anos.
O artigo aponta ainda a demora das autoridades federais e estaduais na elaboração de políticas públicas de segurança e afirma que o assunto virou prioridade apenas na segunda metade dos anos 90.
''Durante os anos 80 e até mesmo na década de 90, predominava o silêncio e a indiferença sobre mortes violentas entre intelectuais, universidades, mídia e até mesmo entre as ONGs'', afirma o artigo assinado por Silva Ramos e Julita Lengruber, respectivamente coordenadora e diretora do Cesec. No entanto, elas destacam iniciativas positivas que surgiram na última década: “Iniciativas criadas pelas maiores vítimas da violência, movimentos como o Olodum, Afro Reggae, Viva Rio, no Rio de Janeiro, e Sou da Paz, em São Paulo, foram primordiais para combater este quadro”, afirma Sílvia Ramos.
O estudo destaca ainda a importância de iniciativas do Congresso como a aprovação do Estatuto do Desarmamento, em 2003.
Cidade de São Paulo tem seis assassinatos de jovens por dia
Somente em 2003 foram assassinados 2.071 jovens com idade entre 15 e 24 anos na cidade de São Paulo. Isso significa que, a cada dia, em média, quase seis pessoas (5,6) nessa faixa etária morreram vítimas de homicídios. Os dados são do Programa de Aprimoramento das Informações de Mortalidade no Município de São Paulo (Pro-Aim). Mais de 93% deste total são homens.
O número total de homicídios no ano passado foi de 4.999. A segunda faixa etária com mais mortes foi a de 25 a 34 anos, com 1.527. A cidade de São Paulo tem 10,27 milhões de habitantes, segundo o Censo de 2000. Mais de 20% desse total são de adulto-jovens (nomenclatura usada pela Organização Mundial da Saúde para pessoas com idade entre 15 e 24 anos).
Segundo Marcos Drumond Júnior, da Coordenadoria de Epidemiologia de Informações da Secretaria Municipal de Saúde, os homicídios de jovens se concentram na periferia e em áreas mais pobres por conta da falta de estrutura dessas regiões.
- Não há opção de lazer e de educação, nem há emprego. Por isso, muitos se envolvem com o tráfico e acabam mortos - diz.
Fontes: http://www.socwatch.org.uy/, Jornal do Brasil ( Fernanda Nidecker), Desarme.org, Diário de S. Paulo (Roberta Rodrigues).
Leia mais:
Alerta vermelho para o futuro do Brasil: pesquisa mostra aumento dramático das taxas de homicídios, principalmente de jovens de 15 a 24 anos
Annual Report 2004 - Fear and Want / Obstacles to Human Security (Relatório na íntegra, por capítulos, em inglês)
Informações sobre o Brasil no relatório (em inglês)
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